Me diga que está triste, eu consolo. Me diga que nunca foi tão feliz, eu concordo. Me ame ou me odeie. Me mande pra puta-que-o-pariu ou me convide pra ir com você. Exploda na minha cara ou se derreta na minha mão. Deixa eu te ver morrendo de tanto rir ou com vergonha das olheiras de tanto chorar. Só não me esconda o rosto. Me abrace, me esmurre, me lamba ou me empurre. Só não me balance os ombros. Não me perturba assistir tua dor nem acompanhar teu gás. Te ver mais ou menos realmente me incomoda. Mais ou menos não rende papo, não faz inverno nem verão, não exige uma longa explicação. É melhor estar alegre ou estar triste, mais ou menos é a pior coisa que existe.
Gabito Nunes
Você compreende os trajetos do amor. Você caminha por mim. Você me leva. Você ri dos meus excessos, você faz escola na minha imaturidade. Você rouba meu tempo e dá à minha pressa um intervalo no infinito. Você quer mais chocolate, quer mais minutos no meu abraço. Você deita, formula teorias sobre o muito que falo, sobre o que calo. Você levanta, quer mais sorvete de madrugada. Você me dá de você novos sabores, temperamentos, novas coisas sem palavra. Você nega, cabisbaixa, toda culpa. Você assume seus erros discordando dos meus acertos. Você repete frases de amor, prega nossas fotos na parede, põe na tela. Você rabisca meu nome nas páginas e nas conversas de amiga. Você usa minha camisa para dormir, põe minhas contas na mesa, meus apetites na mesa, minhas manias num caderno. Você esconde seus medos nas gavetas do meu receio. Você pega a chave, fecha a porta e vai me pegar. Você me leva de novo. Você me lava de leves carícias. Você pega minha mão e anda, pega minha boca e foge, pega minhas faltas e chora. Você tem cuidados cheios de distância, tem distâncias lindamente cuidadosas. Você não me liga, não me imagina, não me interroga, você me procura. Você me acha. Você se encaixa. Você é a terceira pessoa na minha conjugação, ainda assim você conjuga seus verbos na minha pessoa. Você adora elogios, você odeio ouvi-los. Você é lindamente anormal, você me normaliza. Você pede perdão antes dos erros, esconde grandes tristezas em enigmas de silêncio. Você não sou eu. Você é só você, amor. E apesar do pesar de não sermos a mesma pessoa nos indicativos, somos sim no amor vários nós. Somos emendas. Somos o que restou de outros amores. Somos o melhor caminho nestes caminhos.
Você deita. Você prende suas pernas no meu sono e sonha. Você enlaça seus braços no meu ombro e se lança. Você cola sua face no meu colo e me mata. Você me suicida. Felizmente, eu me livro de mim preso a você.
Geovane Belo